Quando o metro chegou à Guarda

Metro Standard, Etienne Lenoir, 1799 (creativecommons)

Introdução

Muitos de nós lembramos ainda a adoção da moeda única europeia, o euro, e a sua substituição da antiga moeda nacional portuguesa. Foi transformação de grande significado e consequências para o país mas que ocorreu, do ponto de vista prático e da vida quotidiana, de modo relativamente fácil e sem sobressaltos. Ambos sistemas monetários são de base decimal, representando portanto um mesmo modo de calcular e realizar as operações aritméticas simples do nosso dia-a-dia. Um mesmo modo fundamental de relacionamento com as realidades monetárias encontrava expressão, numa ou noutra moeda.

Bem diferente era a situação da sociedade portuguesa no século XIX, quando o governo do país resolveu adotar o sistema métrico decimal. Não se confundam, no entanto, a diversidade dos antigos instrumentos de medida, na sua distribuição no espaço ou na sua variação ao longo do tempo, com o sistema de medidas que então vigorava, permitindo o cálculo simplificado de equivalências entre unidades dentro de cada conjunto, e a sua interrelação com  outros sistemas através de equivalências externas, necessárias à troca mercantil e facilitadas por tentativas de unificação promovidas pelos soberanos renascentistas. A “reforma” (palavra fundamental no vocabulário político coevo) das medidas que, em Portugal como em Espanha, se incentivou na mesma conjuntura de meados do século XIX (entre 1849 e 1852), visava com audácia substituir um universo de variabilidade regional e imprecisão relativa, onde o forte e o poderoso se impunham ao fraco no acto mesmo da medição, por um universo de precisão que se queria universal.

Havia que recensear e conhecer as realidades de cada região, objectivo consensual bem estabelecido desde o século anterior. Já os Forais manuelinos, na viragem do século XV para o século XVI, geralmente traduziam e interpretavam as medidas constantes dos antigos forais, dando-nos hoje preciosas informações sobre as medidas e as equivalências em uso nas várias localidades da Beira. Na mesma conjuntura, ideava-se e executava-se uma unificação das medidas à escala do reino, realizada pelo governo do Rei D. Manuel.

Criada em Dezembro de 1855, a Inspeção Geral dos Pesos e Medidas do Reino enviou os seus agentes para os distritos, com o fito de recensear e avaliar a situação em cada território. A elaboração de um relatório geral, publicado em 1859 por Fradesso da Silveira, utilizaria de modo sintético os dados então recolhidos.

Relendo as comunicações enviadas, com disciplinada regularidade, pelo inspetor local da Guarda para Lisboa, posicionamo-nos na charneira de duas realidades em confronto: as de um país em laboriosa transformação política e económica, e as de um país projetado pelo governo central oitocentista. Com a extinção das inspeções em 1868, encerrava-se este episódio da lenta penetração do sistema métrico decimal na Guarda, processo muito mais longo e que implicou várias gerações. Processo que permanece largamente por estudar, tanto na sua dimensão local como na dimensão comparativa ibérica. [RCG]

A geografia dos pesos e medidas da região beirã

  • Isabel Lopes
  • Isabel Nabais
  • Margarida Paulino
  • Cátia Ramos
  • Jorge Sousa
  • Jorge Torres

Oficina de História da Guarda, julho 2017

A medição é uma componente essencial da vida económica das sociedades e também, em muitos aspetos, da sua vida social. Da procura de trocas justas decorre a necessidade de dispor dos mecanismos adequados para as confirmar.

Ao longo dos tempos, muitas foram as formas de medir bens e produtos. No passado, quando as comunidades viviam num relativo isolamento, as suas trocas eram efetuadas numa área limitada e realizadas, na maior parte dos casos, segundo um sistema de troca direta. Tornava-se assim fácil chegar a um entendimento sobre as formas de medição a usar, nos casos em que esta pudesse ser relevante.

Com o desenvolvimento da atividade comercial, cada produto passou a sujeitar-se, tendencialmente, a sucessivas transações, podendo percorrer longas distâncias. Por outro lado, a generalização do uso do dinheiro fez com que se passasse de um sistema de trocas diretas para outro em que a moeda ia intermediando as transações. Era então imperativo criar padrões que permitissem avaliar de forma clara as dimensões e peso dos produtos, área dos terrenos ou duração do tempo.

Alguns dos mais antigos instrumentos de medição de que dispomos fazem parte do legado que os romanos espalharam pelo seu império e que perduraram após a sua extinção. Sofrendo uma inevitável sucessão de alterações ao longo dos tempos, acabaram por surgir discrepâncias entre as dimensões das diferentes unidades de medida, quando avaliadas com distintos instrumentos e em locais afastados. O contacto com diferentes povos que usavam outras unidades de medição, como por exemplo os árabes, resultou na adoção de outras unidades de medidas, aumentando a diversidade de padrões em uso.

Ao longo da Idade Média, foram sendo marcados na superfície de paredes ou muralhas os padrões oficiais em uso nos respetivos municípios. Estas foram as primeiras manifestações no sentido de uniformizar as medidas. De forma a tornar mais fácil a cobrança de diferentes taxas, impostos ou outros pagamentos de que beneficiavam, alguns monarcas tentaram criar um sistema uniforme de medidas a nível nacional. Os primeiros monarcas a tomar medidas neste sentido foram D. Afonso IV (lineares) e D. Pedro I (de capacidade). No entanto, terá sido o rei D. Manuel I a concretizar a principal reforma, cujas bases vigoraram em Portugal praticamente até ao século XIX. O monarca procedeu igualmente à distribuição de cópias dos padrões dos pesos a muitas localidades do reino. Mais tarde, foi D. Sebastião que tomou iniciativa idêntica relativamente às medidas de capacidade.

Com o século XVIII, dentro da lógica do espírito do Iluminismo, acabou por ser adotado em França um novo sistema de medição, baseado no metro, definido a partir do comprimento estimado do meridiano terrestre.

Adotado naquele país em 1795, embora com resistências internas, acabou por ser definitivamente aceite em 1840. Aos poucos, os restantes países foram aderindo a este novo sistema. Portugal, apesar dos atrasos provocados pela instabilidade interna das primeiras décadas do século XIX, acabou por ser dos primeiros a aderir oficialmente, em 13 de dezembro de 1852, apenas antecedido pela Bélgica, Luxemburgo, Holanda, Chile e Espanha.

Esta decisão régia definia em Portugal um prazo de dez anos para a concretização a nível nacional da generalização do novo sistema. Durante este período, diversas iniciativas foram sendo levadas a cabo a fim de assegurar o cumprimento do disposto. Foram feitos levantamentos das medidas em vigor pelo país, foi feita a divulgação do novo sistema, formados os professores que iriam poder transmiti-lo às gerações seguintes, etc.

No âmbito deste processo, no ano de 1859 foi enviado para o distrito da Guarda o inspetor Francisco António da Silva Neves, acompanhado por um aferidor. Ao longo de vários anos, Silva Neves dedicou-se a fazer o levantamento das medidas utilizadas em cada concelho, verificando a sua nomenclatura e dimensões, a equivalência destas com o novo sistema métrico, e o modo como eram aferidas; contactou igualmente com professores para divulgar e promover o novo sistema. Ao mesmo tempo, foram-lhe sendo solicitadas informações diversas sobre a atividade económica da região, destinadas aos inquéritos à atividade industrial que iam sendo publicados. De toda a sua ação foi dando conhecimento aos seus superiores em Lisboa através de numerosa correspondência, de que existe, no Arquivo Distrital da Guarda, o respetivo livro de registo.

Com base, essencialmente, na consulta deste documento, sistematizou-se primeiro a informação relativa aos percursos realizados pelo inspetor no decurso do seu levantamento no terreno, quais as medidas que encontrou e a sua equivalência no sistema métrico decimal, os diferentes contactos estabelecidos, e algumas das suas ideias relativamente à concretização da sua tarefa e face ao panorama encontrado no distrito. O nosso objetivo é, a partir desta fonte, construir uma geografia do sistema de pesos e medidas utilizadas no distrito da Guarda na conjuntura inicial da introdução do sistema decimal. Por fim, importou-nos identificar algumas linhas de investigação que posteriormente poderão vir a complementar e enriquecer este primeiro contributo. 

O Inspetor de Pesos e Medidas do Distrito da Guarda

No dia 23 de setembro de 1859, após uma viagem inicial de barco até Abrantes e posteriormente por terra atravessando a serra da Gardunha, chegou à Guarda Francisco António da Silva Neves. Tinha sido nomeado Inspetor dos Pesos e Medidas do Distrito da Guarda e vinha acompanhado por um aferidor, além de transportar consigo todo o material necessário para o funcionamento da repartição.

Trazia como função implementar o novo sistema métrico decimal junto dos diferentes municípios do distrito, e fazer o levantamento das antigas medidas em uso, determinando a sua equivalência no novo sistema. Uma tarefa adicional consistia em formar os professores locais, para que pudessem ensinar corretamente o novo sistema. A par destas tarefas principais, foi-lhe sendo solicitado que recolhesse outras informações sobre a atividade económica do distrito.

De todo o seu trabalho fez um registo metódico no livro de correspondência enviada, deixando nele, para além da informação factual, muitas opiniões pessoais sobre a situação que encontrou, queixas relativas a situações irregulares, preocupações com necessidades por colmatar.

Tal como a maioria dos responsáveis distritais, era militar, tendo permanecido na Guarda até 1862. Localmente, beneficiou, para as suas deslocações, da logística do Regimento de Infantaria 12.

O itinerário percorrido no levantamento

O seu périplo inicial foi bastante rápido. Em cerca de mês e meio, percorreu todos os concelhos do distrito, levando às suas Câmaras Municipais o novo sistema e fazendo, ao mesmo tempo, o levantamento das medidas antigas aí existentes.

Fez o seu trabalho em duas longas viagens, com uma passagem pela Guarda. Começou o percurso partindo desta cidade em direção a Manteigas, seguindo depois por Gouveia, Seia, Fornos de Algodres, Aguiar da Beira, Trancoso e Celorico da Beira, regressando então à Guarda. Daqui partiu de novo para a zona fronteiriça do distrito, visitando primeiro o Sabugal, seguindo de Almeida, Figueira de Castelo Rodrigo, Vila Nova de Foz Côa, Meda e Pinhel.

Deu esta tarefa por terminada no dia 19 de novembro de 1959 enviando no dia seguinte para Lisboa o respetivo relatório.

Itinerário do Inspetor de Pesos e Medidas do Distrito da Guarda
Mapa 01. Itinerário do Inspetor de Pesos e Medidas do Distrito da Guarda.

Levantamento de medidas

Foram apresentados ao inspetor do distrito padrões de todo o tipo. Ele registou cuidadosamente a presença e omissão de padrões de medidas, e a utilização de padrões incompletos, mutilados, ou irregulares. Por exemplo, ele questionou-se como seria possível medir azeite com padrões apresentados como quartilhos, ou por medidas feitas de madeira? Como é que nos antigos e extintos concelhos de Valhelhas e Famalicão podiam aferir medidas uma vez que existia apenas uma medida que lhe era apresentada, o cubo?

Em 30 de Novembro de 1859, Francisco Neves referia as suas preocupações na correspondência da Inspeção das Peças e Medidas do Distrito da Guarda:

“Que os padrões de que se não comparou o côvado, não o tinham nos respectivos distritos, ninguém afere semelhante medida, nem se serve dela” (Folio 35 verso)

“Que o motivo de esses alguns padrões se não compararem as séries completas de medidas de capacidade para secos ou para líquidos, e dos pesos, foi por não haver as que deveriam de se apresentar (…) para aferição (…)”. (Folio 35 verso)

“Que do que digo, de ser o azeite comprado e vendido n’alguns concelhos por alqueires, se não deve esconder que se não compra e vende também por medidas mais pequenas, porque efectivamente, nada se encontra até ao quarto de quartilho nalgumas terras”.

“(…) que em concelho nenhum pude descobrir qualquer escrito sobre as respectivas medidas (…).” (Folio 36)

A relação de achados que Francisco Neves apresenta inclui as inscrições que vai encontrando nos diferentes padrões que lhe são apresentados. É o caso da inscrição existente na parte superior de um marco de duas arrobas da Câmara Municipal de Trancoso:

Desenho da Inscrição de um marco de duas arrobas constante na documentação da Inspeção Geral de Pesos e Medidas do Distrito
Figura 01. Desenho da Inscrição de um marco de duas arrobas constante na documentação da Inspeção Geral de Pesos e Medidas do Distrito. Extrato do fólio 33 verso.

Na Guarda, foram então encontrados num armário padrões de medidas de capacidade datados de 1575, reinado de D. Sebastião. Francisco Neves reproduziu no seu livro de registo a imagem identificativa destes padrões, em tudo semelhantes aos que se conservam no espólio do Museu da Guarda (por  ex. Inventário número 3-C-D).

Desenho da marca de identificação do padrão de D. Sebastião, constante da documentação da Inspecção Geral de Pesos e Medidas do Distrito
Figura 02. Desenho da marca de identificação do padrão de D. Sebastião, constante da documentação da Inspecção Geral de Pesos e Medidas do Distrito. Extrato do fólio 59 verso. Compare-se

Padrões de medidas utilizadas no distrito da Guarda

Padrões de Medidas registados por Francisco Neves no Distrito da Guarda
Quadro 01. Padrões de Medidas registados por Francisco Neves no Distrito da Guarda.

Outras medidas ainda hoje existentes e não referidas pelo inspetor

Em alguns edifícios da região, existem gravadas algumas medidas-padrão, que não foram referidas pelo autor. Apresentam-se a seguir alguns exemplos.

Côvado da Igreja da Misericórdia do Sabugal (1250)
Figura 03. Côvado da Igreja da Misericórdia do Sabugal (1250).
Côvado e vara inscrito na muralha da Sortelha
Figura 04. Côvado e vara inscrito na muralha da Sortelha.
Côvado de Moreira de Rei
Figura 05. Côvado de Moreira de Rei.

Equivalência das medidas com o sistema métrico

O levantamento de pesos e medidas, realizado por Francisco Neves em meados do século XIX, revelou a diversidade de padrões utilizados, como se pode verificar pelo quadro de Padrões de Pesos e Medidas utilizados no Distrito da Guarda. De uma análise breve ao sistema de pesos utilizados no reinado de D. Manuel I podemos afirmar que subsistiram no Distrito da Guarda a Arroba, o Arrátel, a Onça, e a Oitava ou Cruzado.

A equivalência em Quilogramas destas unidades de medida manteve-se no distrito até meados do século XIX.[1] Tal também acontecia com as medidas lineares portuguesas usadas desde a Idade Média, com a permanência da Vara (1,10m) e do Côvado (0,66m).[2]

Na relação com a vizinha Espanha, sobretudo nos concelhos portugueses mais próximos da fronteira, como Almeida e Sabugal, a equivalência em litros do Cântaro, também designado de Meio Almude ou Alqueire, aproximava-se dos 15,98 litros usados em Salamanca. Em Almeida, o Cântaro equivalia a 15,70 litros e em Sabugal 14,32 litros.[3

Trabalhos empreendidos e dificuldades sentidas pelo inspetor

Através da correspondência expedida foi possível perceber os trabalhos e dificuldades encontradas no processo de implementação inicial do Sistema Métrico Decimal. De entre os trabalhos empreendidos pelo inspetor, e no que concerne à verificação do modo como o novo sistema métrico era introduzido e divulgado junto das populações, verifica-se que as suas tarefas incluíam mapas de vendas de pesos, a relação dos aferidores de medidas do Distrito, e a relação dos professores do ensino particular e público que estavam habilitados para ensinar aos seus alunos o novo sistema. Na implementação do sistema, o inspetor foi também assinalando as principais dificuldades que encontrou: a resistência dos negociantes, a incapacidade administrativa para fazer cumprir a lei, e os prejuízos que derivavam da não utilização do sistema. Francisco Neves reclamava ainda a atuação das autoridades nesta matéria como se pode ver por este excerto dirigido ao Chefe da Repartição de Pesos e Medidas:

"… cumpre-se lembrar a V.ª Ex.ª (baseando-me no grande desleixo que tenho visto n'estes Districto da parte das autoridades em fazer cumprir a lei) que do Ministério competente baixe uma Portaria às Cammaras e Administrações do Concelho para que os oficiais de diligências e aferidores deem immediatamente parte às auctoridades competentes de qualquer de qualquer irregularidade que encontrem sendo logos os infractores ponidos com o rigor da lei, e força bastante aos empregados da Repartição de Pezos e Medidas para per si só poderem multar e prender (dando em seguida parte) qualquer pessoa que nas suas tranzacções se afaste do que exige o novo systhema." (Folio 80 rosto)

Seguindo as diretivas da administração central, o Inspetor avaliava o modo como o ensino ia aplicando o novo sistema e ia explicando o modo como prosseguia esse ensino e a formação dos professores:

"Nas escolas em que os professores teem diploma do systema métrico encontrão-se muitos alunos bem instruídos no mesmo systema. Há algumas cujos professores ainda não foram leccionados, e outras que sendo creadas recentemente foram os seus professores aprovados sem saberem o systhema métrico." (Folio 80 verso)

Além destas tarefas, Francisco Neves foi responsável pela recolha de informacões e dados quantitativos sobre as indústrias do concelho, pela aferição do número das praças do Regimento de Infantaria 12, e foi também elaborando uma listagem de todos os professores do distrito.

Conclusões

Pela informação recolhida a partir do manuscrito consultado, podemos constatar que havia uma situação muito diversa nos catorze concelhos do distrito, embora se possa dizer, com uma boa dose de certeza, que a regra era haver muito pouco cuidado com a conservação e uso dos padrões oficiais.

O inspetor considerou essa situação extremamente desvantajosa para as populações locais, pois os comerciantes usavam uma tal variedade de medidas - principalmente para os cereais, vinho e azeite - que era impossível assegurar a justiça das transações.

Da sua diligência e curiosidade em inquirir os costumes e práticas locais resultou também uma constatação do muito que haveria a fazer, em particular no âmbito da sociedade rural. Por exemplo, o inspetor lamentou não haver uma medida para o cálculo das superfícies, tão importante para a medição dos terrenos. Tanto se usava como unidade a área que se podia lavrar num dia, como o que se podia semear com um alqueire de centeio, ou ainda, para o caso das vinhas, o que um homem podia cavar num dia.

Os aferidores dos concelhos foram geralmente vistos por ele como inaptos e infiéis, o que agravava a falta de zelo por parte das Câmaras Municipais, factores de que se queixou amargamente aos seus colegas de Lisboa.

A aferição de medidas e a aquisição de jogos de pesos e balança tinham custos elevados, pelo que não estavam ao alcance de todos, havendo mesmo quem, não podendo deixar de o fazer, tivesse que optar pela compra em prestações.

Sendo uma das suas tarefas mais persistentes, o inspetor deixou bem claro nos seus escritos o zelo que dedicou ao controlo e à formação dos professores, tarefa fundamental para a correta implementação do novo sistema.

A riqueza e diversidade de informação contida neste manuscrito não se pode esgotar no trabalho agora apresentado, que deve ser encarado apenas como uma primeira achega para o conhecimento de um tema de grande importância na história da Guarda e da sua região.

Outras pistas nos gostaria seguir para aprofundar o que se sabe sobre a vinda do sistema métrico para esta região e as realidades que aqui vigoravam nesta conjuntura de meados do século XIX.

Eis algumas que nos pareceram de grande interesse, a partir da leitura e estudo inicial desta fonte histórica durante o workshop da Oficina de História:

  • Levantamento de outras medidas antigas existentes hoje em dia em museus, autarquias ou noutros espaços, e que não tenham sido mencionadas pelo autor;
  • Aprofundamento do conhecimento sobre a evolução da medição de áreas de terrenos na sociedade rural;
  • A atuação que teve lugar na época oitocentista no campo do ensino, com vista à implementação do sistema métrico decimal;
  • Identificação de fabricantes privados de pesos e medidas com ação neste território;
  • Comparação das medidas antigas com aquelas que estavam em uso do outro lado da fronteira;
  • Estudo da correspondência recebida pelo inspetor através de documentação arquivada em Lisboa, uma vez que o seu registo se encontra incompleto no arquivo local;
  • Levantamento bibliográfico o mais completo possível sobre as medidas anteriores ao sistema métrico existentes no distrito;
  • Levantamento das informações relativas à atividade económica deste território recolhidas pelo inspetor, em resposta a solicitações pontuais;

Seria ainda interessante, de modo a facilitar o acesso destes textos a todos os interessados, a transcrição integral dos livros de registo de correspondência.

Notas

 
[1] Luís Seabra Lopes, “Sistemas legais de Medidas de Peso e Capacidade, do Condado Portucalense ao Século XVI”, Portugália, nova série, vol. XXIV (2003), p.150. Ver também a transcrição da tabela de equivalências realizada pelo inspetor Francisco das Neves.

[2] Mário Jorge Barroca, “Medidas-Padrão Medievais Portuguesas”, Revista da Faculdade de Letras. História, 2ª Série, vol. 9 (1992), p.55

[3] Gustavo Puente Feliz, “El sistema Métrico Decimal. Su importancia e implantación en España”, Cuadernos de Historia Moderna y Contemporánea, 2 (1982), p. 95-125.

Bibliografia

Arquivo Distrital da Guarda. Repartição de Pesos e Medidas da Guarda. Correspondência Expedida 23/09/1859 a 16/06/1865. (http://digitarq.adgrd.arquivos.pt/ details?id=1225031, acedido em 10/07/2017)

Arquivo Distrital da Guarda. Repartição de Pesos e Medidas da Guarda. Correspondência Recebida 30/01/1861 a 19/02/1868. (http://digitarq.adgrd.arquivos.pt/  details?id=1225035, acedido em 20/07/2017)

Mário Jorge Barroca, “Medidas-Padrão Medievais Portuguesas”, Revista da Faculdade de Letras. História, 2ª Série, vol. 9 (1992), p. 53–85.

Luís Seabra Lopes, “Sistemas legais de Medidas de Peso e Capacidade, do Condado Portucalense ao Século XVI”, Portugália, nova série, vol. XXIV (2003), p. 113-164.

Luis Seabra Lopes, “Medidas de capacidade na Beira nos séculos XII a XVI”, Beira Alta, vol. LXII (2003), 1-2, p. 109-141.

Luis Seabra Lopes, “Os padrões de Medidas de Capacidade dados à Guarda por Dom Sebastião e as alterações que sofreram”, Beira Alta vol. LXII (2003), 3-4, p 435-446.

Luís Seabra Lopes, “A cultura da medição em Portugal ao longo da história”, Educação e Matemática, 84 (2005), p. 42-48.

António Neves, “Os pesos e medidas em Portugal na primeira metade do séc. XIX”, (http://www1.ipq.pt/PT/IPQ/historico_eventos/Documents/2017/Sistema-Metrico-evento/AntonioNeves.pdf, consultado em 19/07/2017)

Gustavo Puente Feliz, “El sistema Métrico Decimal. Su importância e implantación en España”, Cuadernos de Historia Moderna y Contemporánea, 2 (1982), p. 95-125.

Marcos Osório, “Pedras singulares (capítulo II): Outros achados arqueológicos enigmáticos do concelho do Sabugal”, Sabucale, 7 (2015), p. 23-50