X Anos depois

Breve história de uma ideia…

Por ocasião do Oitavo Centenário da nossa cidade surgiu a ideia de criar nesta velha terra de fronteira entre Portugal e Espanha, um Centro de Estudos Ibéricos. A sugestão teve a boa fortuna de ser apadrinhada, de um lado e de outro dessa histórica fronteira, pelas duas instituições que, ao longo dos séculos e, em prioridade, foram um modelo da universidade peninsular: Salamanca e Coimbra. Sem esse patrocínio, não poderia ser levado a cabo o ambicioso projecto concebido para esse Centro: o de contribuir, não apenas para um renovado conhecimento das diversas culturas da Península, mas para o estudo da Civilização Ibérica como um todo.

No estado actual do mundo, ameaçado ao mesmo tempo da uniformização em termos de tecnologia e de disseminação em termos de identidades culturais sobre si mesmas fechadas, a Península Ibérica oferece um exemplo raro de uma Comunidade Cultural de longo passado comum e de heranças partilhadas que a institui como um dos espaços privilegiados onde se joga o sentido da História presente e futura. Já é tempo de cultivar essa vinha comum com um interesse e um fervor incomuns.

A sombra tutelar de Oliveira Martins, criador do próprio conceito de Civilização Ibérica e autor da História dessa mesma civilização, inspira este projecto. Sabemos como Unamuno o admirava e comungava no mesmo ideário Ibérico. Mas o que era apenas ideologia ou visão há mais de um século é hoje conveniência e imperativo dos novos tempos. Ao conhecimento e à clara visão do que foi e continua sendo a versão peninsular da Europa se deve votar o nosso Centro de Estudos Ibéricos tanto mais que dela faz parte integrante a primeira, e até hoje nunca ultrapassada, vocação planetária da mesma Europa.

Eduardo Lourenço, Abril de 2001

Dez anos depois…

Dez anos passaram e o que era apenas uma sugestão e um pequeno sonho de alterar profundamente as nossas mútuas relações de conhecimento (e desconhecimento), começa a receber um princípio de existência. E um pouco mais do que isso. Primeiro, pelo empenhamento nesta iniciativa Trans-ibérica a partir de uma pequena cidade, guardiã secular de fronteiras, e do que nela separa, das duas Universidades que, também, nos mesmos séculos, foram lugar do mais alto ensino e do reconhecimento da Cultura que nos é comum: Coimbra e Salamanca. O Centro não podia existir senão apoiado nos mestres, estudiosos e estudantes desses imemoriais Estudos peninsulares. Historiadores, geógrafos, sociólogos, humanistas, das duas velhas Universidades deram vida e têm animado o jovem Centro de Estudos Ibéricos. Graças a eles, o Centro, junto com as outras instituições de interesse cultural da nossa cidade, tem contribuído para dar à Guarda um papel de mediadora entre as nossas duas culturas peninsulares, tão próximas nas suas raízes, mas distantes no seu convívio histórico concreto. E não era outro o projecto deste Centro, que o de conhecer a sério o que também, com dano mútuo, desconhecíamos.

Eduardo Lourenço, Novembro de 2010

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